Karina Oliani fala sobre medicina e como isso a levou para o topo do Everest

Tivemos a grande honra de conversar com uma das pessoas mais aventureiras do Brasil. Karina Oliani é médica especialista em resgate em áreas remotas, é bicampeã brasileira de wakeboard, já escalou o Everest, possui sua produtora, a Pitaya Filmes, onde produz, dirige a apresenta seus programas. Também já apresentou em canais de televisão como Multishow,  Rede Record, Tv Globo, Canal Off, além dos vários programas que já participou como Encontro com Fátima Bernardes (Rede Globo), Altas Horas (Rede Globo), Programa do Jô (Rede Globo), Tá na área (Sportv), Idas e Partidas (GNT), Amaury Jr. (Rede TV), Zona de Impacto (Sportv), Primeiro Tempo (BandSports), Agora é Tarde (Rede Bandeirantes).

Mas o mais incrível disso tudo, além de todas as outras inúmeras conquistas, é saber como Karina é uma pessoa extremamente dedicada, fiel a seus valores, como batalhou muito para  alcançar seus objetivos e querendo sempre ajudar as pessoas em sua volta.

Veja o que mais ela nos contou sobre sua vida, como suas conquistas e história podem nos inspirar a sempre lutar por nossos sonhos:

Como descobriu esse programa de Medicina em Áreas Remotas? Porque decidiu fazê-lo?

Todos me veem como a Karina aventureira, mas poucas pessoas sabem que sou muito estudiosa. Entro nos livros e mergulho de cabeça, por isso me dei bem com a medicina.

Quando estava para me formar na faculdade, sentia uma angústia, porque eu amo medicina, amo a profissão que escolhi, mas se for para ficar dentro de hospitais, centro cirúrgicos e clínicas durante 12 horas do dia, correndo pra cima e pra baixo, eu achei que seria uma pessoa muito infeliz. Mesmo ajudando os outros, que é o que eu gosto. Mas isso porque não sou uma pessoa urbana que gosta de ficar fechada dentro de um ambiente e não ver a luz do sol.

Então eu parei para pensar como fazer para conciliar a minha profissão com o que eu amo. E foi assim que comecei a pesquisar que tipo de especialidade médica me daria chance de estar em ambientes naturais, como montanha, mar, locais onde eu sempre amava estar.

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Karina Oliani – Foto: Fe Pinheiro

Nos 2 últimos anos da faculdade de medicina, eu descobri o WMS (Wilderness Medical Society), que tem sua base em Utah, nos Estados Unidos, mas possui médicos do mundo inteiro que praticam os tipos de medicina mais incríveis que você possa imaginar.

Fiz o fellow na Universidade de Utah, apesar do programa ser mundial. Ele abrange todas as universidades dos Estados Unidos, porque elas contam pontos e aceitam o fellowship da WMS. Há ainda diversas universidades do mundo que são afiliadas ao programa.

Para se formar, o programa pode durar de 2 a 5 anos, depende da sua disponibilidade. Como mergulhei nisso de cabeça, pois era exatamente o que eu queria fazer, peguei 2 anos e meio da minha vida e me dediquei totalmente a isso.

Como eram as aulas?

Era muito legal. Você tem uma grade horária onde cada matéria tem uma exigência de ‘x’ horas para cumprir. As matérias são; medicina aeroespacial, medicina de guerra, medicina de selva, medicina de deserto, medicina hiperbárica ou do mergulho, medicina de alta montanha, ou seja, tudo que eu amava.

Cada matéria exigia também um número determinado de horas de estágio. Sempre uma mistura entre prático e teórico. Então vi tudo o que eu já tinha, porque por exemplo, medicina de selva, eu já tinha feito apoio médico para várias provas de aventura. Já tinha ido para o Jalapão, interior da Bahia, uma outra corrida onde os atletas corriam uma ultra maratona chamada Ultra 135, onde eles corriam 135 milhas, ou seja, 217km, e eu fiz toda a coordenação médica dessa prova. Então algumas experiências eu já tinha no currículo e outras eu ainda precisava correr atrás.

Só que esse “correr atrás” não era em um lugar só, estava tudo espalhado pelos Estados Unidos inteiro. Por exemplo, precisava fazer uma parte de resgate aquático, então fui trabalhar com o pessoal do Baywatch em OC, na Califórnia. Aí precisava fazer a parte de resgate aéreo, então fui para Miami Dade trabalhar no helicóptero com os bombeiros. Mas para conseguir isso, você precisava cumprir todos os critérios e estar disposta a trabalhar no horário e ritmo deles.

No final foram muitos estágios. Depois é preciso apresentar todas as horas de estágios e comprovantes, entrar no seu número de registro, mostrar o diploma para aplicar e eles definirem se você pode aplicar para o fellow ou não. Então depois desses 2 anos e meio, levaram mais 6 meses de análise das minhas experiências e do meu currículo, e aí, só depois que aprovaram eles me chamaram para eu receber o certificado. Fui a primeira médica da América Latina a ter esse fellow.

Como esse programa te levou a ser médica no Everest?

Eu sempre amei escalar. Aos 21 anos de idade comecei a escalar em rocha, com 25 anos de idade fui morar na Itália para fazer um estágio em um hospital em Milão, e nos finais de semana eu pegava um trem e já estava nas montanhas escalando em gelo.

Então, escalada em rocha, escalada em alta montanha e escalada em gelo, eram meus esportes preferidos.

Durante o meu fellowship nos Estados Unidos, fiquei muito amiga de vários professores, porque eles eram escaladores e médicos, ou seja, tínhamos muita coisa em comum, a paixão pela medicina e pela aventura. E um desses amigos que fiz, que para mim é o “papa da medicina” pois não há ninguém acima dele em medicina de alta montanha no mundo, me indicou para uma equipe de escaladores americanos que estavam buscando um médico de alta montanha para uma expedição no Everest.

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Karina Oliani – Everest | Foto: Marcelo Rabelo

Depois que entramos em contato, combinamos tudo para que fosse ficar lá os 4 meses fazendo todo o suporte médico. Era uma oportunidade única para mim, aceitei e fui pra lá. O trabalho foi grande, pois eles estavam preparando uma exposição fotográfica e de filmagem no Everest até a escalada.

Para subir, você precisa de 2 a 3 meses. 1 mês só para se aclimatar, 10 dias para chegar no acampamento base, e 3 dias para voltar. E também tem toda a parte de Kathmandu que você precisa ir atrás da permissão para escalar.

Hoje já fui 5 vezes para o Nepal. O povo de lá te ensina muito. Ao meu ver, eles são pessoas espiritualmente elevadas.

Qual foi a maior lição que aprendeu nessa experiência?

Acho que tiveram algumas lições importantes.

Aprendi que você precisa ser fiel aos seus valores. Nada, nem um cume de nenhuma montanha, nenhum título, nenhum cargo, nenhuma conquista deve ser maior ou deve fazer que um ser humano passe por cima dos valores básicos dele próprio. Talvez essa tenha sido a maior lição, mas aprendi tanta coisa.

A escalada em montanha é um esporte que por si só faz você ter humildade. Você pode ser a pessoa mais forte do mundo, mas na montanha é igual a todo mundo. Lá tem altitude e tiraram seu oxigênio, e sem oxigênio você não consegue fazer as mesmas coisas. É preciso subir lentamente, tem que esperar a montanha te dar os sinais de “olha, agora você pode subir”.

Lá não é a sua hora ou o seu ritmo, é tudo da montanha. Então essa parte de humildade, para você ter sucesso em uma expedição e não virar parte das estatísticas de fatalidades, eu acho bem interessante. É preciso respeitar os seus limites, respeitar o limite das pessoas que estão escalando com você.  É um lugar que você vê exatamente quem é quem. São 55 dias de expedição para escalar, nas condições mais extremas que o ser humano pode se por, e é o que amo da montanha, porque deixa a pessoa pura.

No começo da sua carreira, imaginou que teria vivenciado tantas coisas?

Não. Eu sonhava sempre grande, desde pequena sempre queria mais e mais. Mas não imaginava que eu iria conquistar tudo exatamente que conquistei. E por isso, sou eternamente grata, o que me dá vontade de trabalhar cada vez mais.

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Karina Oliani – Boituva, São Paulo | Episódio Salto Duplo do Balão “Do Jeito Delas” para o Canal Off

Por exemplo, eu ter sido a única médica da América Latina e a mais jovem de todos, a ser convidada para dar aula na Universidade de Harvard em um congresso de medicina extrema, foi um honra.

Trouxe a medicina em áreas remotas para o Brasil. Fui presidente e fundei a Sociedade Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura. Hoje em dia, já não sou mais presidente, mas continuo acompanhado o trabalhado e vendo tudo crescer.

Escalar o Everest também foi uma grande conquista. Ser diretora de séries de televisão que agora estão recebendo prêmios. Porque não é só “o apresentar”, tem toda a parte de inteligência por trás de cada episódio. Começa com a ideia, passamos tudo para os canais de TV, existe toda a negociação, o apoio da minha equipe pois produzimos tudo juntos. E aí, quando fica tudo pronto e você vê o sucesso que fez, batendo recordes de audiência como no domingo no Esporte Espetacular, é muito incrível.

Eu nunca me imaginei na TV, isso foi muito por acaso na minha vida. Quando entrei em medicina, achei que era só aquilo, mas por conta de todos os esportes que pratico, acabei entrando em contato com a televisão. Quando fui bicampeã de wakeboard, fui chamada por alguns canais de televisão para dar entrevista. E foi assim que começou.

Quais as decisões que mais marcaram sua carreira?

Com certeza me tornar médica.

Uma outra decisão, foi uma vez que recebi um telefonema e me convidaram para fazer um teste de televisão no Rio de Janeiro, e eu achava que não tinha nada a ver comigo, que eu seria um fracasso, mas mesmo assim eu decidi ir. E quando pediram para eu falar, eu travei e esqueci completamente o meu texto, e ainda perdi a voz de nervoso na frente da câmera. Mas a decisão de ter ido até lá, superar meu medo de falar pra câmera e em público, mudou minha vida, pois foi meu primeiro teste para entrar na TV. Esse foi o convite para me tornar apresentadora do Rolé no Zona de Impacto do SporTV, que foi exatamente 10 anos atrás, e onde fiquei por 2 anos.

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Karina Oliani – Bahamas | Episódio Mergulho com Reef Sharks “Do Jeito Delas” para o Canal Off

O que diria para jovens que estão começando a fazer decisões importantes para seus futuros?

A primeira coisa, eu diria para eles ficarem atentos, deixar a sensibilidade e as coisas que vêm “ao acaso”, se livrar de todos preconceitos e ficar atento a esses sopros do universo, porque às vezes você tem um plano e vida mas o destino pode ter preparado outras coisas para você. E coisas que podem ser tanto ou até mais incríveis do que o que tinha escolhido antes. E se você fechar essa porta, você pode perder uma super oportunidade.

Como a TV foi para mim, nunca me imaginei trabalhando nela, e hoje em dia eu vejo que posso tocar e mudar a vida de tanta gente, que fazendo as coisas certas dá pra ajudar tantas pessoas. E eu tinha esse preconceito com a TV antes, mas dei chance a oportunidade que me apareceu e foi ótimo.

O que tem a dizer sobre “zona de conforto”?

Zona de conforto a gente adora. O ser humano foi feito para ficar nela através de uma lei da física que se chama inércia, mas o excesso de tudo é prejudicial. E o excesso de ficarmos dentro da nossa zona de conforto é tão ruim quanto excesso de ficarmos fora dela. Acho que todo ser humano que busca o equilíbrio entre os dois, está no caminho certo.

É preciso de vez em quando se colocar em perigo, estabelecer metas que parecem muito difíceis e sair da zona de conforto. Tentar ver quais são seus limites mas também é muito importante, de vez em quando, aproveitar e voltar para ela para respirar, para chegar nesse equilíbrio que é algo tão precioso na vida.

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Karina Oliani – Nova Zelândia | Foto: Marcelo Rabelo

Hoje, depois de tudo que já conquistou e viveu, o que diria para a Karina de 19 anos antes da faculdade de medicina?

Eu diria para a Karina: Faça da sua vida, algo que quando chegar no fim dela, você olhasse e fizesse tudo do mesmo jeito. Não se arrependa do que você tentou fazer, porque não é feio errar, pelo contrário, se não fosse pelos nosso fracassos e erros, a gente nunca chegaria em alturas mais altas. Todo mundo que conquistou alguma coisa grande, errou muito antes de chegar lá, então não tenha medo de errar. Trabalhe muito, dê muito duro, porque ninguém chega em lugares maiores se não tiver muita paixão, muita determinação e não meça esforços para conquistar os seus sonhos.

E também falaria: fica tranquila que sua vida vai ser demais, você vai se orgulhar muito de quem é e que você vai amar ser você.

Hoje eu olho e vejo que faria tudo igual. Todas as decisões, como ter entrado para a TV. E também dos momentos que eu disse não para alguns convites que recebi, pois seriam coisas que passariam por cima dos meus valores pessoais, e que na época foram muito difíceis de recusar mas eu sabia que outros convites viriam. O que é seu é seu e ninguém tira.

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Karina Oliani – Jamaica | Foto: Kadu Pinheiro

1 Comentários

  1. Olha, sou fã dessa garota rs. Não pela mulher linda (que também é), mas pelo lado espiritual do ser. É interessante sua filosofia. Pretendo chegar perto disso um dia

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