Jovem passa quatro semanas na África como voluntária trabalhando com crianças autistas

Histórias de trabalho voluntário sempre são muito interessantes. Vemos como pessoas se dispõem a ajudar ao próximo e como isso é fascinante.

Mas o mais curioso é ver como os voluntários se descobrem em situações como essa, a entrevista de hoje mostra isso. Falamos com a Carolina, 18, que passou um mês na Cidade do Cabo, África do Sul, trabalhando como voluntária em uma escola particular para crianças autistas.

Para quem não sabe, o autismo, de acordo com o Dr. Drauzio Varella, é um transtorno do desenvolvimento marcado por três características fundamentais:

  1. Inabilidade para interagir socialmente
  2. Dificuldade no domínio da linguagem para comunicar-se ou lidar com jogos simbólicos
  3. Padrão de comportamento restritivo e repetitivo

Também, existem vários graus para esse transtorno, desde mais leves até mais graves. O que explica a diferença de comportamento entre os autistas.

Antes de fazer sua viagem, a Carolina buscou se informar sobre o tema. Na escola que trabalhou, foi instruída em como agir e trabalhar com as crianças. Veja o que mais ela falou sobre essa história incrível e admirável:

 

Como você descobriu o programa?

Pela CI (Central do Intercâmbio) – Foi tudo responsabilidade deles, desde passagem aérea até estadia.

Sei que também é possível fazer tudo direto com a escola, que chama Vera School. Nesse caso você só precisaria comprar a passagem aérea separadamente e eles tomam conta do resto.

Como achou moradia?

Tudo pré-definido. Fiquei em um hostel que, infelizmente, era péssimo. Era uma casinha que chama African Heart, por foto parecia ótimo. Mas não me avisaram que o banheiro era separado do quarto, que existia a possibilidade de dividir quarto com meninos e falaram que os quartos eram para 2 até 4 pessoas, mas na verdade tinham quartos para até 6 pessoas.

Não tinha armário, minhas roupas ficaram dentro da mala o mês inteiro. E no banheiro era preciso se trocar dentro do box, já que era tudo compartilhado e separado.

As refeições no hostel incluiam café da manhã e jantar. O café da manhã era bem básico, então acabei comprando algumas coisas em um supermercado, que foi super barato por sinal.  O jantar variava de acordo com a cozinheira do dia, uma delas era vegetariana e se recusava a fazer carne, mas falamos com o dono do hostel e ele montou um cardápio com coisas que deveriam ter nas refeições e ficou tudo bem.

IMG_9978
No hostel

Como era seu dia a dia? 

Trabalhava das 9h às 14h dentro da escola. E das 14h às 17h ficava no hostel da própria escola, onde algumas crianças íam depois da aula. Dos 90 alunos, 32 íam para o hostel depois, pois seus pais trabalhavam. – Inclusive existe a possibilidade de você ficar nesse hostel, mas eu só soube depois que cheguei lá.  Não são quartos individuais, mas existe um armário para cada cama e banheiro dentro do quarto, se pudesse ter escolhido antes teria ficado lá.

Como foi seu trabalho lá?

A escola montou uma rotina para mim.

Na primeira semana, circulei bastante pela escola para entender onde preferiria trabalhar. Aí cada dia eu fazia algo diferente.

No primeiro dia, dei de cara com um menino de 10 anos, que não falava e não conseguia fechar a boca. Assustei um pouco e achei que não iria aguentar, era muito triste.

Mas no mesmo dia, encontrei um outro menino e me apaixonei.

Na terça feira trabalhei com música e sentidos, para estimular o pensamento. Na quarta feira fomos para a hípica, para as crianças terem contato com cavalos e cavalgar um pouco. Na quinta feira fui em uma sala de meninos de 15 a 17 anos, foi quando percebi que queria trabalhar com os mais novos. O autista assusta e reage, sem maldade, mas os mais velhos não tinham noção da força deles, também acho que por eu ter 18 anos e ver os adolescentes quase da minha idade lá, me assustou um pouco, não soube lidar.

IMG_9983
Na hípica

A coordenação da escola foi muito prestativa. Me ensinaram o que fazer e como reagir a qualquer situação.

Foi uma experiência incrível, quero voltar com certeza.

Para ir do hostel que estava hospedada para a escola, tinha um motorista que nos buscava e levava (tinha mais um voluntário). Foi bom pois além de dar uma segurança não era preciso gastar com táxi.

Na aula, cada criança era única. Alguns aprendiam a ler, outros tinham matemática, linguagem e literatura e outros não chegavam a ter essas matérias.

IMG_9985
Estudando

Autistas prestam muita atenção em música e vídeo, então tinham bastante atividades ligadas a isso. Algumas outras ensinavamos coordenação motora.

Às 10h era hora do lanche, ensinávamos a lavar as mãos, escovar os dentes e tudo direitinho. Depois levávamos todos durante 40 minutos para o parquinho, mas eles não interagem muito, brincavam basicamente sozinhos, o que é uma característica do autismo.

IMG_9986
Hora do lanche

Às vinte para o meio dia voltávamos para sala, era hora de montar quebra cabeça, que é um bom exercício para eles.

Além disso, ensinávamos uma técnica de comunicação comum para autistas, conhecida como TEACCH – as crianças tinham como se fosse uma pastinha com velcro. Nela, estava escrito “I WANT’ e depois eles colavam com o que queriam .

img4a423137965ea
Pastinha TEACCH

 

Às 14h era hora do almoço. Ajudava as crianças de 8 a 10 anos. Depois ía para o hostel e as ajudava a fazer lição de casa até às 15h30.

Eram dois hostels, um para meninos e meninas de 4 a 12 anos e outro para adolescentes de 13 a 17 anos. Eu sempre ía para o hostel dos mais novos.

Depois era hora de brincar e mais uma lanche às 16h. Às 17h tinham outras atividades, como futebol, natação ou bicicleta, mas não participava pois era minha hora de ir embora.

IMG_9980
No parquinho

Como foi a convivência com as crianças?

Antes de ir busquei estudar sobre o assunto, li um livro com relatos de mães falando como era ter os filhos autistas. Mas é muito diferente e difícil lidar. Assusta sim.

Foi super difícil no começo, saber como agir, mas no final aprendi como tratá-los, o que falar e o que não falar. O que valia a pena brigar e no que prestar mais atenção.

Tinham dois meninos que foram muito carinhosos e um deles me falou que ia sentir saudades de mim para sempre.

Foi muito emocionante, porque eles não se expressam assim normalmente.

IMG_9989

Tinha um menino, por exemplo, que só falava com a mãe. Ele sabia falar mas não falava com mais ninguém. Alguns eram tão fechados que ao chorar não faziam expressões faciais, só as lágrimas escorriam pelo rosto.

O que fez nos finais de semana?

Tive um final de semana livre que decidi fazer um safari.  Eles nos buscaram no hostel e foram 5 horas de viagem, parando pelo caminho.

Chegando lá, fiz uma caminhada de 40 minutos com leões, cheguei a um metro e meio de um deles.

11038863_831648393548843_9118447824022271158_n
O guia disse que os leões respeitam quando estamos com essa vara

Depois fui para um hostel na cidade, muito fofinho e com comida boa. Aí fiz um encontro com lêmures.

IMG_9992
Encontro com lêmures

Nos outros finais de semana fomos (os outros voluntários e eu) para feirinhas de café da manhã – tinha um na costa com várias barracas de comida.

Fomos no cinema, shopping e lojas e em barzinhos na frente do porto.

IMG_9994
Feira de comida

Passamos outro dia na praia, que chama Camp’s Bay, ficamos lá das 9h até às 19h. E no outro dia escalamos a Table Mountain. 

IMG_0004
Na praia
IMG_0003
Houtbay

O que mais gostou? 

Do contato com as crianças.

Estudo comunicação social, estava certa que queria seguir carreira na área de criação, mas depois dessa experiência mudei de ideia. Descobri o quanto gosto do contato com pessoas, então devo ir para área de marketing.

IMG_9988
Aniversário de uma das crianças

O que aprendeu?

Aprendi que por mais que viajar sozinha seja meio assustador, vale a pena.

Estava muito apreensiva por ir para uma país diferente, não sabia o que esperar. Descobri que dá para enfrentar e ir. Você aprende a se virar.

E problemas podem acontecer, mas nada que você não resolva.

Se surgir a oportunidade de ir, vá porque com certeza isso vai acrescentar na sua vida.

 

IMG_9977
Final de semana

 

O que evitar?

Evite pegar transporte público. Eles sabem identificar turistas e acabam te roubando, não à mão armada, mas não precisa correr esse risco.

Então é melhor pegar táxi, são baratos, ainda mais dividindo com outras pessoas. Mas também tome cuidado, não pegue táxis na rua, só pegue aqueles que são de empresas (vai estar escrito no lado de fora do carro), e antes de sair para seu destino certifique-se de quanto vai custar a corrida, é comum eles te enrolarem para ganhar mais.

Tive um problema que uma vez me cobraram o dobro do que estava combinado, e era um táxi de empresa.

Dicas úteis? 

Para ir para lá você precisa de uma série de vacinas e levar o comprovante de cada uma delas. Também dependendo de onde for é preciso tomar o remédio para malária. Por ir para a Cidade do Cabo, não precisei.

IMG_0002
Cabo da Boa Esperança

 

Veja também:

2 Comentários

  1. Fabrício Aguiarsays:

    Olá meus querido estive lendo a historia da menina que foi Voluntária na África para crianças com autismo. Como posso participar desse intercambio de voluntariado.

    • Go Alongsays:

      Olá Fabricio! Tudo bem?
      Você pode seguir os passos da Carolina, como descritos na matéria.
      Se tiver mais alguma dúvida, mande um email para nós!
      contato@goalong.com.br

      abraços!

Deixe um comentário

Please be polite. We appreciate that. Your email address will not be published and required fields are marked