Jovem conta como um programa de bolsas de estudo americano mudou sua vida

Fulbright é uma comissão americana responsável pelo Programa de Intercâmbio Educacional e Cultural do Governo dos Estados Unidos da América. De acordo com o site da comissão, “Durante toda a sua existência, este programa já concedeu mais de 370 mil bolsas de estudo, pesquisa e ensino a cidadãos norte-americanos e de outros 150 países.”

Hoje conversamos com o André Luiz, 24, que está morando em Washington estudando Business na NOVA – North Virginia Community College. Sua chegada no país americano foi em Junho de 2015 e sua bolsa dura até Maio de 2016.

Ele nos contou como foi o processo para ganhar a bolsa, que é muito disputada pelo pouco número de vagas, e também como está sendo sua vida estudando e morando nos Estados Unidos.

Confira tudo que ele nos disse:

Como descobriu o programa Fulbright?

No Brasil estudo comércio exterior na IFRN, onde conheci o representante de estudos internacionais da universidade. Desde que entrei lá, perguntei quando teriam vagas de bolsas de estudo no exterior e a resposta que tinha era sempre sobre o programa Fulbright, que até então eu não conhecia. Até que certo dia, ele avisou meu irmão (que por acaso estagia com ele), que haviam aberto vagas para o programa. Não dei muito importância na hora e no dia seguinte meu pai me incentivou a me inscrever. Falou para pesquisar as vagas de bolsas e me inscrevi no programa. Foi assim que comecei a participar das etapas.

Etapas:

Primeiro me inscrevi, depois fiz Toefl., as entrevistas, também precisei escrever bastante sobre mim. Como o porque esse programa mudaria minha vida, falar sobre meus objetivos de vida, planos para o futuro, como essa bolsa iria me ajudar e os projetos sociais que participava.

Depois disso, me pediram documentos e histórico escolar. Até então, não acreditava muito que ia dar certo, pois eram muito poucas vagas.

A comissão foi para Natal fazer entrevistas. Eles possuem representação em Brasília mas viajaram para as entrevistas. Foi aí que as coisas começaram a ficar mais sérias.

Eles valorizam muito quem faz trabalho voluntário e o que você faz pela sua comunidade. O que é algo muito mais comum nos Estados Unidos do que no Brasil. E eu tinha feito voluntariado no IFRN, onde meu trabalho era transformar garrafões de água de 20L em cesta de lixo para comunidades mais pobres e transformar pneus em coisas utilizáveis como balanços. Era reciclagem de uma forma usável para a comunidade.

Eles também se interessaram muito pelo fato de eu ser presidente do centro acadêmico de comércio exterior. O que eu não achava que faria tanta diferença.

Até esse momento, era tudo meio indefinido, não sabia para onde iria ou qual faculdade seria. E durante todo o processo, deu para ver a importância que o governo americano dá para esse programa. Figuras importantes do governo participaram do processo e até fecharam a embaixada americana para nos receber.

Recebi as passagens 2 semanas antes da data de viajar. Mas tudo é muito segredo sobre o que ia acontecer. Quando a representante do Fulbright voltou para Recife, ela comentou que essa etapa internacional que participamos tinha sido muito difícil, mas até hoje não sei o que isso significou ou quantas pessoas participaram.

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Carimbo de quando visitei a ONU

 

Como foi quando descobriu que iria para Washington?

Fiquei bem feliz. Meu sonho era Califórnia, porque eu amo o mar. Mas de todos os lugares que vi, Washington pareceu a mais importante por ser a capital dos Estados Unidos. Fica muito perto de Nova York. E se você alugar um carro, você consegue viajar e conhecer muitos lugares pela proximidade.

É uma sensação incrível vir para cá, mas quando cheguei, as 2 primeiras semanas foram muito difíceis. Quase pedi para sair. Estranhei muito, não consegui me adaptar. Perdi muito peso no começo porque levava uma vida bastante saudável no Brasil, mas cheguei aqui e sair com os amigos era só para ir em lanchonete. E ficar afastado da minha família e amigos, e não consegui me acostumar.

A primeira semana precisei resolver muita coisa, muita burocracia e aula também já tinha começado. Não parava em casa. Mas na terceira semana, depois que conheci mais pessoas e comecei a me enturmar, ficou mais fácil.

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Vista da faculdade

 

O que acha da infraestrutura do lugar e da didática da escola ?

Em relação a infra: é tudo incrível. Eu vou de ônibus para aula, a escola fica na mesma rua que moro, só que bem pra frente. Aqui você aprende muita coisa, até em como viver. Eu fiz amizade com alguns americanos, e o modo como eles utilizam o tempo deles fez mudar minha rotina. No Brasil, eu acordava para ir para a aula e gastava um hora e 20 minutos, para tomar banho e comer. E aqui, vi que eles acordam 10 minutos antes da aula e comem no caminho ou no intervalo. Agora também acordo 10 minutos antes de ir pra aula.

Tudo aqui é mais fácil, o ônibus, por exemplo, passa no momento exato que está no cronograma ou no GPS, então dá para saber que horas exatamente eu preciso sai para estar no ponto.

Acho que o modo de estudo é mais eficiente, parece que as aulas são mais leves mas você absorve melhor o que é passado, pelo modo como você é cobrado e como precisa se preparar para cada aula.

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Biblioteca NOVA

 

Como é seu dia a dia?

A aula começa as 7h50 da manhã. Mas isso por causa da nevasca que teve no inverno que deixou a escola fechado por  duas semanas, então tivemos que estender o horário de aulas, tanto para mais cedo como para mais tarde, para compensar o tempo perdido.

A única coisa é que é difícil sair no frio logo cedo, com 14/15 graus negativos.

Se não fosse essa compensação na carga horária, sairia um pouco mais tarde, por volta de 8h20 da manhã. Cada semestre varia o horário de aulas. No semestre passado tinha aula de segunda a sexta. Mas a minha coordenadora viu isso e acha que eu estava sobrecarregado. Até que ela falou que no próximo semestre ia dar uma aliviada pra mim.

Então esse semestre eu não tenho aula de segunda-feira. Na terça-feira, tenho aula de 7h40 até as 17h, sem intervalo e só com 15 minutos para almoçar. Aí na quarta-feira tenho só 2 horas de aula. Na quinta-feira tenho aula até as 13 horas e sexta-feira não tenho aula. Ou seja, aula só de terça à quinta.

O que faz fora do horário de aula?

Sou muito ligado em saúde. Então vou bastante na academia. Como gosto de malhar todos os dias, e só tenho aula 3 dias na semana, fica complicado ir na academia da faculdade, que é excelente, mas que também fecha aos sábados e domingos. Então tem uma academia super perto da minha casa, a LA Fitness, então vou todo dia lá.

Também vou muito na igreja e as melhores amizades que fiz aqui foram lá. Vou em uma de brasileiros e outra americana. E nas sexta-feiras tem encontro de jovens na igreja americana.

Minhas amizades são grande parte de lá. E diferente do Brasil, eles organizam muita coisa, como outro dia que um dos meus amigos ligou falando de uma viagem de ski, durante 4 dias. Perguntei o quanto teria que pagar e eles disseram que não era nada. Você viaja com tudo pago e organizado. Eles te acolhem muito aqui.

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Você sente que precisa estudar mais sozinho?

Sim. Tento estudar 2 horas todos os dias, no mínimo. Por exemplo, tenho um professor de Business, que tenho 3 horas de aula com ele. Ele dá uma aula excelente mas depois pede para prepararmos muita coisa em casa, como: resumir capítulos do livro, escrever sobre determinados assuntos, preparar apresentações sobre temas específicos. Ou seja, além da aula, eles exigem que muita coisa seja feita em casa.

Uma coisa que eu quero fazer quando voltar para o Brasil e incentivar as pessoas a fazerem intercâmbio. Outra coisa que faço que acho que me ajuda, é todo dia assistir um filme em inglês. Você ganha mais vocabulário e consegue ver o quanto melhora na língua com o tempo.

Como é sua moradia?

No dia que cheguei a coordenadora me buscou no aeroporto, me levou até a casa, me mostrou tudo. Todos que moram na casa também passaram na Fulbright.

Moro com 5 homens. Dois egípcios, um indiano, um ganês e um indonésio. Não tem jeito melhor de entender sotaques do que morar com estrangeiros.

Sou amigo desse pessoal que moro agora. No começo ficava muito na rua e dormia na casa de amigos.Viajava bastante.

Quais as exigências da sua bolsa?

Eu sou obrigado, pelo programa da Fulbright, a fazer 60 horas de estágio, 100 horas de trabalho voluntário e fazer pelo menos 2 matérias optativas. E toda sexta-feira de manhã eu tenho uma aula com a coordenadora da Fulbright sobre história americana.

Como conseguiu seu estágio?

Como estudo Comércio Exterior no Brasil, trabalhei com importação e exportação de carga. Então aqui consegui um estágio em uma empresa de comércio exterior.

Mas o trabalho não pode ser remunerado, por causa do visto e da bolsa que já te dá auxílio.

O que fez de trabalho voluntário?

Até limpeza de parque eu já fiz. Aqui existem vários sites sobre voluntariado, então sempre tem o que fazer. E todo mundo participa e com empenho.

Nos Estados Unidos, um estudante de colegial só se forma se cumprir as horas necessárias de trabalho voluntário, então eles estão acostumados a tal.

Inclusive, esse é um projeto meu para quando voltar para o Brasil, organizar e incentivar as pessoas a fazerem trabalho voluntário.

Um desafio?

As primeiras semanas. Me adaptar a estar longe e morar com 5 caras de culturas tão diferentes. Divido quarto com um deles, mas o quarto é enorme. N primeira semana o cara chegava no quarto 3h da manhã, acendia a luz, fazia video conferência no celular, tomava banho, (e aqui as paredes são muito finas então dá pra ouvir tudo). Estava quase estourando, então cheguei para ele e falei tudo o que me incomodava. Depois disso, ele faz o máximo pra não fazer barulho. Independente disso, me dou muito bem com ele.

O que mais gosta?

Não consigo dizer uma coisa só, gosto de tudo. Das amizades, dos lugares e da vida. Aqui é tudo muito mais simples. No Brasil você vê muita tragédia na TV. Desde que cheguei aqui mal vejo essas coisas. Chego em casa 2 horas da manhã com celular na mão, vou para a aula de ônibus com notebook de baixo do braço e não existe problema com isso. É mais fácil e mais tranquilo.

O que mais gosto de fazer no tempo livre são coisas relacionadas a natureza e atividades físicas e ir à igreja.

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O que evitar?

Vejo muita gente que faz intercâmbio e se fecha muito. Até os caras que moram comigo, eles não saem de casa. Ficam olhando quando faço algo, como semana passada que fiz um churrasco para as pessoas da igreja, eles só ficam vendo e achando muito legal.

Também conheci muita gente aqui. Então fico muito pouco em casa. Saio da aula direto para outro lugar. Acho que precisamos viver e aprender os costumes, o respeito alheio na comunidade e a rotina. Como, por exemplo, na escada rolante todos parados do lado direito e livre do lado esquerdo pra quem quiser andar.

Como definiria o programa Fulbright na sua vida?

Foi algo único. Ver alguém investir no seu futuro dessa forma, para melhorar seu inglês, viver uma experiência internacional e sem se preocupar com nada. Também vi que o programa se preocupa com o seu bem estar, seus problemas e tudo mais. O cuidado que eles tem com os bolsistas é incrível.

Te dão um suporte mas você precisa retribuir. Não acho que nada vai se comparar com essa experiência que estou tendo. Eles organizam encontros no país, ficando em hotéis e com a programação toda feita. Fizemos uma semana de integração aqui em Washington e em Nova York depois. Em um hotel muito bom, ai todos te recepcionando (professores, coordenadores) Trouxeram os estudantes do país todo com tudo pago.

Foram 3 dias de atividade no hotel ai fomos para Ny. Conheci a Broadway,  assisti O Fantasma da Opera, subi na Estátua Liberdade, fiquei hospedado em um hotel incrível na Times Square. Eles organizam guia para conhecer, passamos pela Filadelfia.

É tudo muito bom. Uma semana antes eles passaram todo o cronograma, e tudo seguiu exatamente de acordo.

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Eles exigem algo depois que voltar?

Preciso entregar um plano para mostrar o que aprendi no Estados Unidos e o que vou levar para o meu país. Eu quero ir nas comunidades pobres e carentes da minha cidade, principalmente  nas escolas e motivar as crianças a seguiram por um caminho certo. Para que elas tenham alguém as incentivando a estudar e se esforçar por um futuro melhor.

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1 Comentários

  1. Tatiana Lealsays:

    Gostei muito da entrevista e vou recomendar para as minhas filhas, que tem vontade de fazer sua vida no exterior, estudar fora. Uma delas também cursa Relações Internacionais em Porto Alegre e vai gostar de saber os caminhos para seguir com a experiência dele. Muito interessante.

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