Ela é mulher e viajou sozinha. Sabe o que aconteceu? Foi incrível!

Um dos grandes dilemas que mulheres enfrentam no mundo das viagens é o receio de viajar sozinha. Sinceramente, o mundo precisa se modernizar para acabar com qualquer medo que uma mulher tenha de fazer algo por conta própria. Liberdade é sim um direito de todos, assim como o respeito é devido ao próximo.

Nossa entrevista hoje é com a Mariana, que viveu a incrível experiência de passar um mês sozinha por lugares incríveis na Europa. Se inspire um pouco com essa jornada:

Como surgiu a ideia/possibilidade de viajar sozinha?

Aconteceu em 2014, quando eu estava morando na França. Minhas amigas e eu estávamos com as passagem de volta pro Brasil marcadas pro fim do mês de junho e na época eu só estudava, ou seja, eu passaria o mês de julho inteiro de pernas pro ar (o que eu odeio!), fazendo os mesmos programas de sempre em São Paulo. Sendo realista, eu sabia que logo menos eu voltaria a estudar, começaria a trabalhar e só Deus sabe quando eu teria férias novamente. Eu provavelmente nunca mais teria uma oportunidade igual, então o que eu tinha a perder? Resolvi mudar a minha passagem de volta pro Brasil pra dali 30 dias e fazer de tudo na Europa, menos ficar de pernas pro ar! Minhas amigas foram embora e eu fiquei com minha própria companhia.

Qual foi seu roteiro e porque escolheu esses lugares?

Como em Paris eu tinha muito contato com brasileiros e estrangeiros (inclusive morava com uma amiga brasileira), eu acabei falando mais português e inglês. Eu falava francês no dia-a-dia mesmo, na hora de pagar o aluguel, fazer as compras no supermercado, no transporte público, etc. Então nesse mês que eu passaria sozinha, eu resolvi viajar pela França pra aprimorar a língua, conhecer lugares que eu nunca tinha ido e sair da minha zona de conforto. Prometi pra mim mesma que não falaria inglês em nenhum momento! Sendo assim, pesquisei na internet os destinos que eu mais queria conhecer na França e adicionei Firenze e Veneza, na Itália, que eram dois lugares praticamente obrigatórios que eu ainda não conhecia.

 

Meu roteiro foi (saindo de Paris)

 

  • Aix En Provence, porque é uma cidadezinha bem famosa no sul da França e eu queria conhecer as principais cidades do país.

 

  • Cassis, por causa dos famosos Calanques de Cassis, principalmente o Calanque D’En Vau – sério, procurem no Google que vocês vão entender porque eu resolvi ir pra lá.
  • Carcassonne, porque eu AMO história, principalmente a Era Medieval. Carcassonne é a cidade medieval mais bem-preservada do mundo e é um patrimônio mundial da Unesco. Imagina se eu não ia conhecer, né? Foi maravilhoso, uma viagem no tempo.
  • Lyon, porque é a segunda maior cidade da França.
  • Strasbourg, também é uma cidade super famosa na região da Alsácia, principalmente porque foi motivo de vários desentendimentos entre a França e a Alemanha no período das Grandes Guerras. Alsácia e Lorena, quem lembra?
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Em Strasbourg, as pessoas fazem competição de quem tem a varanda mais florida. É maravilhoso <3

 

  • Lille, porque eu tinha ouvido falar super bem e, como eu estava ali perto, resolvi ir conhecer.
  • Firenze, por motivos óbvios.
  • Veneza, por motivos óbvios.

 

Quais receios teve antes da viagem por ser uma mulher viajando sozinha?

Sempre rola um certo receio de viajar sozinha, principalmente quando a gente acompanha as notícias desumanas desse nosso mundo. Infelizmente, toda mulher sabe os perigos de perambular por aí sozinha e desde pequenas aprendemos a evitar situações de risco. Mas sinceramente, eu não parava pra pensar quais receios eu tinha, porque acho que isso traz uma energia muito negativa, atrai coisas ruins, traz inseguranças e, inclusive, leva muita gente a desistir dos seus sonhos por medo do que poderia acontecer. Tem coisa pior que isso? Além disso, eu estava indo na maioria das vezes para cidades pequenas, com baixo ou nenhum índice de violência, então isso com certeza ajudou. Pra mim, bastou confiar no meu instinto e nas lições que meus pais me ensinaram que estava tudo bem. E, realmente, ficou tudo bem. Não passei nenhum perrengue e me senti muito orgulhosa de não ter desistido desse meu sonho.

O que diria sobre os mitos de viajar sozinha?

Dizem que viajar sozinha é perigoso, é coisa de gente solitária, é coisa de louco. Quem disse isso, obviamente nunca teve esse privilégio na vida. Sobre ser perigoso? Claro que é. Assim como atravessar a rua sem olhar pros lados, dirigir digitando no celular, andar de bicicleta sem capacete, correr com o tênis desamarrado, beber demais, usar drogas, pular de pára-quedas. E quantos desses você já fez? Como eu vou explicar mais pra baixo, é só você saber se cuidar e estar sempre atento, assim como em qualquer outro lugar do mundo e situação da vida.

 

Sobre ser coisa de gente solitária: graças a Deus eu tive a sorte de estar sempre cercada de pessoas incríveis na minha vida. E mais do que isso, tenho a sorte de chamar muitas delas de família e amigos, conviver com a maioria e manter contato com os que eu me importo. É com muita gratidão que eu digo que não sou nem um pouco solitária. Mas eu acredito que pra você se sentir bem estando acompanhado, você tem que se sentir bem estando sozinho e aprendendo tudo o que pode sobre si mesmo. E nada melhor do que ficar a sós pra ter essa experiência. Ou como eu prefiro dizer: estar com a sua própria companhia. Infelizmente, não é todo mundo que entende que uma pessoa pode viajar sozinha pra se encontrar, pra se descobrir, pra se renovar, porque as suas férias não bateram com as dos seus amigos ou só porque ela está com vontade mesmo. Dica: não se importe com o que essas pessoas pensam 🙂

 

E sobre ser coisa de louco, tem uma frase de um livro/filme/desenho da Disney que todo mundo conhece que diz:

Alice: – O senhor acha que eu estou enlouquecendo?

Chapeleiro: – Eu acho que sim! Você está louca, maluca, perdeu a razão. Mas eu vou te contar um segredo: as melhores pessoas são assim.

 

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Spoiler: não vai ter ninguém pra avisar que a foto vai ficar torta

O que mais gostou ao viajar sozinha?

Uau, tem várias. Acho que a primeira foi a autodescoberta. Desde abrir um mapa, escolher os destinos, comprar as passagens e reservar os hostels até fazer uma trilha sozinha e acabar numa praia paradisíaca, bater papos em francês, fazer amigos do nada, acertar o caminho de primeira, pegar o sentido certo do ônibus. Viajando sozinha eu descobri que sou capaz de fazer QUALQUER coisa e que eu não dependo de ninguém pra me virar. Se eu estiver sozinha? Ótimo. Se eu estiver acompanhada? Melhor ainda.

 

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A praia paradisíaca é lá embaixo

 

Depois, a liberdade. Gosto de explicar esse com um exemplo. Quando eu estava em Veneza, eu escolhi ficar uns 6 dias, mas quando eu estava lá eu descobri que só 4 seriam o suficiente. Eu já tinha feito todos os programas possíveis, inclusive repeti alguns, e no último dia estava um calor absurdo (e eu detesto calor). Quando eu me dei conta, eu estava rodando sem rumo, me sentindo “obrigada” a aproveitar a cidade ao máximo. Parei um pouco e pensei: “Quer saber? Dane-se. Eu vou é pro hotel ficar vendo TV no ar condicionado”. Absolutamente nada me impediu de fazer isso e ninguém ficou bravo comigo por esse motivo. Isso pra mim é liberdade: você fazer o que quiser e mudar seus planos sem ter que dar satisfação pra ninguém.

 

Por último, o anonimato. Estar num lugar onde NINGUÉM te conhece é libertador. Você pode ser uma pessoa diferente a cada cidade. Usar as roupas que quiser, cantar sozinho na rua, deixar o medo de ser julgado de lado e ser quem você quiser!

 

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E o melhor: ninguém vai te julgar se você almoçar e jantar sorvete.

Maior desafio de viajar sozinha?

A solidão.

“Mas Nana, você não cansou de falar lá em cima que solidão era um mito???”

Sim, eu falei. Mas a vida não é 8 ou 80. Na maioria do tempo, eu estava perfeitamente bem sozinha, mas às vezes claro que eu sentia falta de ter alguém pra me ajudar a entender uma palavra sem ter que perguntar pra um estranho, pra compartilhar comigo uma coisa engraçada, pra ir comer fora e provar uma garfada da comida, pra tirar uma foto junto (viajar sozinho significa muitas selfies), pra te tirar da bad quando ela bate ou simplesmente pra conversar! Teve dias que eu simplesmente não abri a boca e isso faz uma falta danada!

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Selfie de uma grande conquista que eu comemorei comigo mesma.

 

 

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Um tripé é um item essencial pro viajante solo

 

 

Nessa minha viagem, teve um dia que eu me senti muito sozinha. Foi logo depois do 7×1 (kkkk) e eu estava sentindo muita coisa ao mesmo tempo. Além dessa derrota vergonhosa, eu já estava longe de casa há 7 meses, com saudades de muitas pessoas que ficaram no Brasil ou foram embora da França. Eu tinha cansado de sair da minha zona de conforto. Na verdade, a zona de conforto era tudo o que eu queria naquele momento! Minha casa, minha rotina, minhas manias, falar minha língua. Quando você está sozinho, sua mente se enche de coisas que você não gostaria de pensar ou lembrar. Nesse dia, no meu diário de viagem, eu escrevi: “Hoje foi um dia difícil. Tô com um nó na garganta, querendo chorar, mas estou no Hostel e não quero chamar atenção. Realmente, é preciso coragem pra viajar sozinha”.

 

Como eu combati isso? Tendo sempre um livro, meu diário de viagem e minha câmera comigo. Meu livro me distraía quando eu queria jogar tempo fora ou não pensar em outras coisas; meu diário me servia de companhia, porque era nele que eu escrevia o que eu estava sentindo, o que tinha acontecido no dia, as histórias engraçadas, os recados de novos amigos; e minha câmera, que é a minha maior companheira da vida. Eles três foram meus melhores amigos durante essa viagem!

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Meu querido diário de viagem <3

 

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Outro desafio: passar um mês só com essa malinha de mão

Como foi conhecer pessoas ao longo da viagem?

Foi incrível! Viajando sozinho, você se sente mais aberto pra puxar papo e conhecer novas pessoas. Principalmente quando você fica em hostel, você encontra muitas outras pessoas sozinhas que pretendem fazer o mesmo programa que você e adorariam uma companhia!

 

Um dos dias mais especiais da minha vida aconteceu em Veneza, quando eu conheci uma mãe e uma filha, Nadine e Sarah, que estava comemorando seu aniversário. Nos conhecemos quando estávamos pintando uma máscara em um ateliê e, puxando papo, fiquei super amiga das duas. O pai da menina não tinha conseguido ir por causa do trabalho, então todos os planos que eles fizeram pra esse dia tinham um lugar sobrando. E adivinhem quem elas convidaram pra comemorar o aniversário da Sarah? Isso mesmo. Euzinha. Comemos pizza numa praça iluminada, andamos de gôndola e, no fim, cantamos parabéns pra Sarah num barco ao pôr do sol no Grand Canal. Agradeci ao destino (ou acaso?) por ter mexido seus pauzinhos e me colocado ali no dia certo e na hora certa. Foi muito especial!

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Que cuidados acha importante?

É tudo uma questão de você ser esperto (inteligente, não no sentido ‘malandro’). Como diz meu pai, “esperto não é quem sai da confusão. É quem nem entra nela!”. Cuidado (e bom senso) a gente tem que ter em qualquer lugar: não é porque eu estava num país “de primeiro mundo” que eu andava com a bolsa aberta, com cara de perdida, com todos os meus objetos de valor juntos ao mesmo tempo num bairro abandonado. Se você souber se cuidar e estiver sempre atento, não há motivo pra preocupação. Mas tem alguns cuidados básicos:

  • Respeite as pessoas e a cultura do país que você está. Esse é o primeiro passo! Procure falar o básico da língua (afinal, você é o visitante e ninguém é obrigado a entender seu inglês ou seus gestos), saber os modos e costumes locais, o que é permitido ou não no país, etc.
  • Ter sempre algum tipo de identificação com você
  • Manter seus pertences sempre juntos e com cadeado
  • Não andar sozinho de noite e nem em lugares muito desertos
  • Pode conversar com estranhos sim, mas cuidado com o que fala. Não dê informações pessoais, onde você está hospedado, qual é o seu roteiro de viagem, pistas sobre a sua condição financeira, dê a entender que têm pessoas que sabem onde você está, etc.
  • Tenha sempre uma alternativa offline. Não são todos os lugares que têm wifi, o sinal do seu celular provavelmente não vai pegar e, se tudo o que você precisa estiver no seu telefone, você vai se ferrar. Leve com você um mapa, telefones de emergência, o endereço do hotel (ou do lugar que você precisa ir) e um carregador de celular.

 

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Geração Google Maps!

 

  • Envie seu roteiro de viagem (com datas, voos, trens, hotéis que você vai ficar e seus respectivos telefones) para a sua família e procure sempre mantê-los atualizados do seu paradeiro e próximos passos.
  • Prefira pegar Ubers. Quando fizer isso, tire um print da tela com as informações do motorista e envie pras suas pessoas de confiança ao embarcar no carro.

 

Quais outros lugares do mundo iria e nao iria sozinha?

Tem vários lugares que eu adoraria conhecer, mas sei que não posso ir sozinha. Infelizmente, a América Latina, África, Ásia e Oriente Médio, por questões culturais (no Oriente Médio, por exemplo, as mulheres ainda são tratadas como objetos, moedas de troca e são subordinadas aos homens. Autonomia? Nem pensar. Triste!) e pelo alto índice de violência.

Acho que a América do Norte e a Europa são bem mais tranquilos nessa questão, mas também não se salvam totalmente. Há relatos terríveis de incidentes com viajantes solo, além da xenofobia, machismo, etc., mas no geral, é mais fácil de evitar problemas por lá.

 

Minha maior dica é: VAI COM TUDO E SEM MEDO! Ter viajado sozinha foi uma das melhores e mais libertadoras experiências da minha vida <3

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2 Comentários

  1. Giovannasays:

    Viajo sozinha há 15 anos. Fui para cidades do interior de SP e:
    Argentina 2x (amo muito) – um mês e depois um fim de semana
    Nova Zelândia – viajei dentro do país – um mês
    Nova York – 15 dias
    Canadá – 15 dias
    Obs: Nova Zelândia tem seus perigos como qualquer outra cidade, porém vale muito a pena.

  2. Legal! Adoro viajar sozinha e penso da mesma forma que você, isso não tem nada a ver com ser solitária. Mas vou te dizer… Em março/abril deste ano fui pra África do Sul, Zâmbia e Zimbábue sozinha. Foi sensacional… Mesmo! Você com certeza tem que ter mais jogo de cintura nesses países, mas vale muito a pena!
    Beijos

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