Antes dos terremotos, ela foi voluntária em uma escola no Nepal

Esse ano, o mundo presenciou um grande desastre natural que atingiu o Nepal. Uma destruição sem recuperação em um local que carregava uma história centenária.

A Maria Luiza, foi voluntária lá em Outubro de 2014, durante um mês e meio, antes dos terremotos acontecerem. Com tudo que ela nos contou, vemos que esse povo oferece muito mais do que seu patrimônio histórico, eles possuem uma sabedoria de vida que não se acha em qualquer lugar.

Em sua primeira viagem internacional, ela buscou um programa diferente e descobriu esse no Nepal pela Aiesec de Passo Fundo. Ela seria professora de inglês para crianças até 3 anos de idade na Orchid Garden Nepal.

Veja o que mais ela nos contou:

Como achou moradia?

O programa pela Aiesec se responsabiliza em achar moradia. Fiquei na própria casa de intercambistas deles lá. Tinham pessoas do mundo todo, chilenos, holandeses, romenos, australianos e mais.

No mesmo prédio ficava o escritório da Aiesec, então o clima era bem jovial. Tive um amigo que quis ficar em casa de família, para se aprofundar mesmo na cultura deles. Vi que as duas experiências de moradia, tanto a dele quanto a minha, foram bastante ricas em aprendizado.

Como era seu dia a dia?

Nos primeiros dias eu fiz adaptação, saía de casa com a escola. Me acostumar com a comida e o idioma foi mais complicado, mas foi tudo bem.

Uma professora da escola nos mostrou um local para praticar Yoga, então acordava as 5h da manhã e ía para essa aula em uma comunidade, além de ser legal era de graça.

Depois disso ía para a escola, que ficava atrás da minha casa, para trabalhar com as crianças.

Nos finais de semana saíamos para conhecer Katmandu, fazer viagens e tentar ver tudo que desse.

Pashupatinath
Pashupatinath

 

Como foi o trabalho?

As crianças chegavam na escola entre 9h ou 10h da manhã e íam embora no período da tarde. A maioria delas eram carentes e a escola ajudava com as doações que recebia, com roupas e tudo mais. Durante o dia elas recebiam lanche da manhã, almoço e água disponível sempre.

Quando cheguei lá, senti um impacto social muito grande.  Todas as crianças mais velhas falavam inglês, e com as crianças menores, com as quais trabalhei, percebi uma disciplina muito rígida.

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As professoras não tinham tanta formação na área de educação, então para controlar as crianças, elas tinham um pau para bater nelas caso achassem necessário. Eu levei um longo tempo para entender que a evolução desse povo é diferente, talvez até menor do que a nossa no Brasil. Foi chocante, mas era o jeito delas de educarem as crianças, não estavam machucando elas.

Durante o dia, ensinava elas a falar inglês, fazia atividades, ajudava na hora da refeição, na hora de dormir e na hora de brincar. Percebi que todo dia elas comiam a mesma coisa, todas juntas e sempre muito disciplinadas.

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Tentei me dedicar as crianças que estavam mais isoladas ou mais quietinhas. Com o tempo fui percebendo a evolução delas para interagir. Queria ajudá-las para elas se virarem depois que eu não estivesse mais lá. Inclusive tentei ensinar uma delas a andar, para que depois ela pudesse se virar sem medo.

Como foi receber a notícia do terremoto?

Quando fiquei sabendo foi um “Deus nos acuda”, e por ter sido uma viagem tão especial, foi um impacto enorme para mim. Meu desenvolvimento lá foi muito grande, assim como o apego que criei com as pessoas, então queria saber se todos estavam bem. As pessoas da Aiesec conseguiram se comunicar e nos mandar notícias, sobre as famílias, a escola e como todos estavam bem e que a região deles não tinha sido muito afetada pois estaca longe do epicentro.

Depois de tudo, um grupo de brasileiros começou a publicar depoimentos sobre o que viveram lá para tentar ajudar o Nepal.

 

Um desafio?

O maior desafio foi a a cultura. A diferente forma de pensar. Quando saí de casa e pela primeira vez viajar de avião, só poder contar comigo mesma e ver o mundo, fiquei em pânico mas não deixei o pânico tomar conta de mim.

Teve um dia que precisava ir a um seminário e não pesquisei muito como chegar no local. Peguei um táxi e um ônibus mas não sabia exatamente onde deveria descer. Aí pedi ajuda para uma mulher que estava no ônibus também, ela disse que teria que descer no mesmo lugar que eu. Como viu que estava um pouco perdida, ela me ofereceu ajuda novamente. Depois disso, caminhei com ela para buscar o nenê dela, ela me pagou um café e mostrou onde deveria ir.

Descobri que em qualquer lugar do mundo existem pessoas ruins sim, mas que também há pessoas boas que vão te ajudar.

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O que mais gostou? 

Das pessoas, sem dúvida. O que elas ensinam, com o olhar e a simplicidade. A forma como eles vivem mudou a forma como eu penso.

Lá, conheci o budismo, que me impactou e me fez pensar. É tanta coisa que tem para conhecer, e na sua cidade você tem uma cabeça muito fechada. Tem um mundo enorme para se descobrir.

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Já estou planejando minha próxima viagem pra Ásia, porque lá, uma das coisas que me impactou foi o ritmo diferente delas de viver, todos são muito mais preocupadas com o ser do que com um ter. São pessoas mais preocupadas com religião.

Foi uma aula de vida conviver com essa cultura.

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Convivi muito com a família que recebeu meu amigo chileno, me apeguei muito a eles. Durante todo o tempo lá, eles sempre nos recebiam e abriam suas portas para nós. Inclusive, fizeram duas despedidas antes de irmos embora.

Para mim, se tornaram uma família mesmo. Na despedida todos choravam, foi pateticamente lindo haha.

Minha familia + amigos
Família e amigos

 

O que evitar?

Cuidado com a comida, é tudo muito apimentado e não tomem água da torneira. Até me adaptar, passei um pouco mal. Carne lá também é um pouco suspeita.

Para comprar algo, as pessoas barganham muito, então negociem.

E a criminalidade é um pouco mais elevada lá (mas ainda menor que no Brasil), então evite sair a noite sozinho, só saia em grupos. É bom ficar atento e evitar situações desagradáveis.

Dicas úteis?

A primeira coisa a se fazer ao ir para outro país é pesquisar sobre a cultura deles, o que fazer e o que não fazer. Veja como as pessoas vivem, descubra quais roupas não deveria usar. Você pode não ofender a cultura deles, mas poderia receber olhares diferentes.

E recomendo a todos a conhecer o Nepal. Inclusive, o país ainda precisa de muita ajuda para reconstruir casas, pontos turísticos e mais. Um livro foi criado com esse intuito, saiba como recebê-lo e ajudar o Nepal aqui.

 

 

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