A voluntária que conheceu Moçambique e hoje dedica sua vida a ajudar as pessoas de lá

A história de hoje não conta apenas sobre uma viagem de voluntariado feita pela Beatriz. Mas sim como começou a dedicar sua vida a pessoas que precisam. Como ela mesma nos disse “não acredito que possa mudar o mundo, mas sei que posso mudar o mundo de algumas pessoas”.

Veja o que ela nos contou sobre sua trajetória, a de sua ONG e a de algumas pessoas que tiveram a sorte de conhecê-la:

Como sua vida se direcionou ao trabalho voluntário?

No meu último ano de escola, tive problemas de saúde, fui afastada por um tempo e não consegui prestar vestibular. No ano seguinte, que poderia ter feito cursinho, ainda não tinha me recuperado. Comecei a achar que isso era um sinal dizendo que talvez aquele não fosse o caminho que deveria seguir.

Com isso, me candidatei para uma viagem voluntária para Moçambique em uma organização onde de 180 inscritos, 30 foram selecionados para viajar.

Tinha acabado de fazer 18 anos e estava começando a criar um projeto aqui no Brasil para ajudar pessoas necessitadas de alguma forma. Conversei com alguns amigos que apoiaram a ideia e criamos uma ONG. Não sabíamos o que poderíamos fazer com os recursos que tínhamos, que eram poucos. E até então nossa ONG era só o nome, sem nada legalmente definido.

Pensando um pouco decidimos ajudar moradores de rua, com alimento e roupas. Fizemos uma campanha do agasalho e tivemos um resulto super bom. As pessoas começaram a ver nosso movimento e quiseram ajudar também.

Nossos projetos foram caminhando. Fizemos um bazar de roupas em uma favela, vendendo roupas para crianças carentes a um custo de R$0,50 ou R$1,00. O dinheiro arrecadado foi revertido para custear uma parte da minha viagem a Moçambique.

Como foi sua primeira ida a Moçambique?

Antes de chegar lá, eu tinha medo de ver toda aquela realidade, a pobreza e a miséria, e perceber que não seria algo que queria trabalhar. Era algo que eu sempre quis fazer mas tinha o receio de ter me enganado. Mas chegando lá, vi que ajudar aquelas pessoas era exatamente o que queria fazer.

Levamos 150 kits escolares para crianças, com mochilas-saco, caneta, lápis, escova de dente e algumas coisas mais. Nosso trabalho era mais social em algumas comunidades bastante carentes e distantes da cidades, e principalmente com crianças. Contávamos histórias, distribuímos brinquedos de doações que todos os voluntários levaram.

Grande parte das crianças não falava português, então estávamos sempre acompanhados de um tradutor. Convivíamos bastante com o povo, para entender sua cultura, costumes e rotina.

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Sheila muito doce, quis estar sempre próxima a mim e expressou sua gratidão me trazendo 3 mandiocas de presente. Isso mesmo, ela me presenteou com 3 mandiocas, provavelmente o que ela tinha para comer naquele dia, ofereceu o seu melhor em sinal de respeito e agradecimento pelo que estávamos fazendo. Quando um moçambicano é grato por algo, ele entrega o seu melhor, aquilo que por vezes é a sua alimentação. Algo simples, que tocou no mais profundo do meu coração.

 

Dormíamos no centro de traduções, que era o único lugar com energia e água. Era enorme, com várias casinhas e voluntários de todas as partes do mundo. Para sair, usávamos vans ou caminhões.

Posso dizer que foram os 13 dias que mudaram minha vida completamente. Meus valores e sonhos mudaram no dia em que pisei em Moçambique.

Como foi voltar para o Brasil?

Fiquei com aquela viagem na cabeça. Comparando a realidade dos dois países e ficando chateado ao ver o quanto temos e eles não. Então comecei a pensar como tinha sido tudo e lembrava sempre do estado da água que eles bebiam que mais parecia um leite semi-desnatado. Lá, os problemas de saúde são grandes, uma taxa de mortalidade infantil elevada e uma expectativa de vida de 45 anos de idade.

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A água que eles bebem.

 

Comecei a conversar com um amigo que é engenheiro hídrico, falei que já estava planejando voltar pois estava arrecadando doações. Ele começou com a ideia de levar algo que fosse realmente mudar e transformar a comunidade que fossemos, e assim, ele me mostrou um purificador de água que funciona com energia solar, limpa cerca de 400 litros de água/hora, criado pelo INPA no Amazonas por um pesquisador Alemão e um técnico de Manaus.

Então entrei em contato com o INPA para saber os requisitos e eles falaram que eu precisaria montar uma pesquisa com várias informações, como número de pessoas, quantas seriam crianças, IDH do lugar, expectativa de vida, do que as pessoas morrem e quais doenças. E para isso, eu teria que voltar para Moçambique.

Isso aconteceu em 2014,ano que ONG Reviva foi oficialmente aberta. (Acompanhe a ONG Reviva pelo Facebook )

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O purificador de água

 

Como planejou a 2 viagem a Moçambique?

Começamos a preparar um grupo de 5 pessoas para voltar para a África, incluindo minha mãe que sempre teve um sonho de ir para lá. Dessa vez, fiquei 33 dias. Fizemos a pesquisa que precisávamos. Mas dessa vez foi tudo muito diferente, pois não estava de baixo de um liderança de algum grupo, estava por mim mesma. Precisei me virar, andar a pé e de transporte público, contratei um segurança pois a segurança lá, principalmente com mulheres brancas, é muito difícil, podendo ser abusadas sexualmente ou até mortas.

Durante esse tempo que passamos lá, o governo de Nampula ouviu sobre um grupo de brancos (é como eles sempre se referiam a nós) com um projeto social. Aí, a prefeitura de Meconta nos chamou para conversar e saber mais sobre nosso trabalho. A governadora, depois de nos conhecer, disse que queria doar uma terra para o nosso projeto pois ela tinha visto a mudança que poderíamos levar para a comunidade. Nunca imaginei que isso aconteceria tão rápido, ainda mais com ela nos dizendo que poderíamos escolher o local do terreno e o tamanho.

O ministro da agricultura nos encontrou para escolher o terreno. Perguntei qual seria o tamanha e ele nos disse que até 11 hectares, o equivalente a 110 mil metros quadrados. Como isso era muito, escolhemos 5 hectares.

Foi a realização de um sonho. Pensamos em construir um orfanato pela quantidade de órfãos por causa do HIV, fome, guerra civil (terminou há 30 anos, mas o rastros são muito presentes até hoje). Mas para finalizar a doação do terreno, precisávamos passar tudo legalmente para o no me da ONG, e para isso, ela tinha que ser aberta em Moçambique.

Contratei um advogado e consegui um patrocinador para arcar com os custos.

Voltei para o Brasil…

…antes dessa parte do projeto ser concluída mas já tinha começado a trabalhar para conseguir mais patrocinadores para conseguir comprar os filtros de água, que na época custavam em torno de R$20.000 cada.

Voltei a falar de novo com o INPA e eles pediram para que eu fosse até Manaus para discutir sobre o assunto. Apresentei o projeto para eles e eles amaram a ideia, pois seria também um jeito de exportar algo criado no Brasil.

Além disso, até então tínhamos um patrocínio para comprar a segunda máquina já que o pesquisador nos daria uma. Mas, quando estava embarcando para Manaus, recebi uma ligação da empresa patrocinadora dizendo que uma de suas fábricas tinha pegado fogo e que eles estavam cancelando todos os custos extras, ou seja, perdemos o patrocínio. Fiquei muito chateada e desesperada, não falei nada para o pesquisador ao chegar. No final de nossa conversa, ele disse que estava sentindo que queria dar as duas máquinas e foi o que aconteceu.

Depois conseguimos um outro patrocinador que iria pagar as placas solares e a bomba para puxar a água.

Isso tudo aconteceu em Julho de 2014, quando 4 pessoas da ONG retornaram para Moçambique. Minha mãe também foi, ela é chef de cozinha e ensinou como as pessoas poderiam reaproveitar comida que antes era desperdiçada por eles. Por exemplo o Caju, que eles só comiam a castanha e jogavam a fruta fora.

Levamos a máquina purificadora no ano passado. Instalamos a primeira máquina em uma comunidade com 400 habitantes. O que foi muito difícil de instalar, já que não havia energia elétrica. Levantamos a estrutura com toras de madeira. Até último dia que fiquei lá, ainda não tinham terminado tudo. Os meus amigos, que eram engenheiros, ficaram para terminar o trabalho. E todos da comunidade que estavam lá, independente da religião, se juntaram para ajudar, o que não é nada comum pois eles nem se falam caso a religião não seja a mesma.

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Compramos uma bateria para fazer funcionar a máquina, mas ela era era de péssima qualidade, depois que os meninos (voluntários) arrumaram ela e instalaram tudo, a água saiu bem pouco pela torneira.

Depois, eles também voltaram e pensamos no que poderíamos fazer para melhorar ainda mais o sistema de captação de água. Então decidimos comprar um gerador. O gerador foi comprado em Moçambique, pois temos um representante da ONG lá. Mas o gerador precisa de gasolina ou óleo, então teremos que vender a água a um custo mínimo, um preço realmente muito baixo pois eles não tem quase nada que possam usar para pagar.

Essa comunidade que escolhemos era muito distante, o que foi um dos motivos que nos fez escolhe-la, pela falta de acesso, de escola, de hospital. Então além da água, pagamos um curso de alfabetização para uma mulher para que ela desse aula para as crianças.

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600 bolas foram entregues e 500 kits de material escolar

 

A nova campanha para esse ano é conseguir montar uma escola lá e outra em um campo de refugiados. Visitei um desses que existe há pelo menos 11 anos. Mas esses locais são diferentes pela ajuda da ONU, pois eles conseguem água potável, tem estudo também (precário) e possuem ajuda de mais ONGs. Mas mesmo assim, falta escola, material e tudo mais. As aulas são dadas de em local praticamente aberto, quando não ficam de baixo de um árvore e as crianças escrevem no próprio chão.

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Escola no campo de refugiados de Maratane que será beneficiado com a construção da escola

 

Como vocês criaram o projeto Bolsa Trabalho?

Na primeira vez que fui, tinha uma guia que me acompanhava, chamada Raquel. Cada um lá tinha um guia. Onde íamos a Raquel ía junto e fiquei muito próxima dela durante a viagem. Ela nos contou um pouco de sua história, disse que em uma época de fome seus pais fugiram e ela foi criada com ajuda e a boa vontade de algumas pessoas. Todo dia que ela me encontrava, estava sempre com o mesmo sapato, mesma camiseta, mesma capulana (saia típica) e sempre com cheiro de suor. Contei para a minha mãe, uma história que nos comoveu bastante e começamos a pensar em um jeito de ajudá-la.

A Raquel foi a primeira criança/adolescente a quem começamos a mandar um pouco de dinheiro por mês. Mas achamos que esse dinheiro deveria ser merecido e não apenas dado, então bolamos um plano chamado bolsa trabalho, onde quem participasse deveria trabalhar na comunidade incentivando a educação para crianças e a recreação no hospital central da cidade, pois quase não tem médico, então as crianças ficam lá sem fazer nada.

Hoje, existem algumas pessoas trabalhando com isso. A Raquel foi a primeira, com 100 reais por mês. E depois foram surgindo outras meninas com histórias e traumas de infância. Lá, as meninas são criadas para satisfazer o homem, cuidar da casa e trabalhar. Depois que elas menstruam pela primeira vez, a cultura é os pais dizerem que as meninas estão prontas, e qualquer homem que pagar pode ter a menina para si.

Com uma cultura tão diferente, é muito fácil achar hi

stórias tristes, relacionadas a doenças, estupro, fome, abandono e mais. Então, a cada mês, pessoas da comunidade nos procuravam pedindo para que outros jovens fossem incluídos no projeto do bolsa trabalho. Para poder fazer o projeto funcionar, fizemos de tal forma que pessoas aqui no Brasil adotassem os jovens e mandassem o salário deles todo mês.  Hoje em dia, esses jovens conseguiram até comprar um celular para poder entrar em contato com seus mantenedores, contando um pouco de sua histórias. Hoje conseguem comprar desodorante, shampoo e sabonete, o que é muito raro de se ter em Moçambique.

Hoje são 70 jovens adotados.

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Jovens que participam do Bolsa Trabalho

 

 

Essa comunidade e essas crianças precisam de toda ajuda que conseguirem. Como a Bia mesmo nos disse: “sei que não posso mudar o mundo, mas posso tentar mudar o mundo de algumas pessoas”. A ONG Reviva trabalha diariamente para conseguir recursos para melhorar a vida dessas pessoas. Por isso, pedimos a todos e qualquer um, o mínimo que puderem para ajudar.

Banco do Brasil

Agência: 7065-3

C/C: 40244-3

CNPJ: 20.481.317/0001-02 

 

6 Comentários

  1. Lívia Machadosays:

    Sou muito Fã do trabalho da Beatriz
    Vejo o amor nos olhos dela!
    Deus a abençoe, flor!!

  2. Marianasays:

    Parabéns Beatriz, você e todos os voluntários são seres iluminados!!!!!

  3. Camilasays:

    Como faço pra fazer uma viagem como voluntária com essa ONG?

  4. Camilasays:

    Como faço para fazer uma viagem como voluntária com essa ONG?

  5. Annesays:

    Fiz essa viagem e também mudou minha vida. Recomendo, pois é incrível, apesar dos desafios! Espero retornar e no que puder ser de ajuda nessa obra de vocês quero participar!

  6. Acácio Americo Fungulane Murioriosays:

    Continue assim Bia muita forca nisso que fazes, porque o mundo precisa de pessoas como tu. isso e muito maravilhoso, lutar pelas causas sociais, Deus abencoe-te e muito pelo oque fazes pelo nosso pais, se possivel gostaria muito de ajudar de alguma forma.

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