3 países, 2 trabalhos voluntários e 1 viagem

Trabalhos voluntários pelo mundo, normalmente, se resumem a períodos menores de tempo do que um intercâmbio de 6 meses. Hoje, conversamos com a Lia, que resolveu trancar um semestre da faculdade e juntou 2 programas de trabalho voluntário para passar o mesmo período trabalhando e viajando pela Ásia.

Sua viagem começou em Julho de 2015 passando por Índia, Nepal e finalizando tudo no Sri Lanka.

Veja o que la nos contou:

Trabalho voluntário

Índia

Fui dar aula de inglês em uma escola, mas fiquei um pouco frustrada com projeto pois era uma escola particular, sem muita organização e não achavam tão importante o trabalho dos voluntários, queriam apenas para mostrar. A Aiesec de lá era meio desorganizada, então não seguiam algum tipo de cronograma. Depois de uma semana. Teve muita coisa ruim. No caso, consegui ver que não é sempre que as coisas dão certo ou vão do jeito que a gente planejava.

Sri Lanka

Fui trabalhar com crianças com deficiência intelectual. Foi um projeto maravilhoso, em uma zona mais rural. Tinham 15 crianças e alguns adultos até com und 30 anos, mas apesar da idade, pareciam crianças de 5 anos. Dava aula de matemática e inglês, mas tudo muito básico,  e dei um jeito de aprender os números em singalês.

No primeiro dia, só uma professora falava inglês e ela nos explicou como era o modelo de aula que ela dava para que pudéssemos seguir o mesmo meio. Eu tinha 3 alunos meus, comecei a seguir esse tipo de aula sempre repetindo muitas vezes até eles aprenderem. Passava o dia inteiro lá e fazia o que precisasse para ajudar nas atividades.

Criei um vínculo muito grande, mesmo não falando a mesma língua que eles.

Como você descobriu os programas?

Os dois pela Aiesec.

Mas no Sri Lanka eu abandonei a Aiesec e fui morar na casa de uma professora porque fiquei na casa de um cara muito estranho e não recebi o suporte necessário. Depois de vários problemas e brigas com o dono da casa, acabamos saindo de lá sem avisar para morar com uma professora que nos acolheu.

Essa professora falou que outras pessoas tinham reclamado da Aiesec de lá. Também nos disse que a dona da escola não curtiu muito o serviço deles lá, então a escola me apoiou e me deixou continuar trabalhando com eles.

O que fez escolher a Índia e o Sri Lanka?

Já tinha ido para Ásia por turismo e foi um lugar que me atraiu muito. Não conheço a Europa ainda, mas não tinha vontade de ir. Queria voltar para a Ásia por uma afinidade que tive com o continente, comecei a ver os projetos e decidi ir.

Estava um pouco cansada do meu trabalho e queria sair para fazer algo, então pensei que como já tinha que trancar um semestre juntei 2 programas para durar o mesmo tempo.

A Aiesec da PUC é muito boa. Eles levam muito a sério o trabalho deles, se preocupam com tudo que acontece e eles me deram muito suporte lá por aqui.

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Como achou moradia?

Índia

Morei em Jaipur em uma casa que era como uma pensão. Tinham 20 pessoas do mundo inteiro, a maioria da Aiesec e muitos em projetos que não eram voluntários,  e sim por um programa que chama Explore India. Viajávamos todo final de semana, 8 horas de ônibus para onde fosse; Agra, Udaipur, Deserto de Thar, Jodpur. Taj Mahal é maravilhoso mas em volta parece que você está em um lixão.

Na Índia é lixo por todo lado e do nada um castelo.

No Sri Lanka, como eu mencionei ali em cima, acabei indo morar com uma professora que nos acolheu.

Como foi viver com a cultura indiana?

Muito difícil, principalmente por ser mulher. Nunca sai de casa sozinha, foi algo que até alguns indianos me falaram, por uma questão de segurança. E mesmo andando com homens, as pessoas te olham estranho. Sempre saía de calça, pedem pra tirar foto com você o tempo todo na rua. No começo eu tirava porque achava engraçado, mas depois parei porque perdeu a graça. Tinham situações meio chatas.

Mas não tive problema. Só achei uma cultura muito atrasada.

E a cultura no Sri Lanka?

Era um pouco mais light por ser budista. Mas também muito atrasada. Lá por exemplo, ninguém pode ser gay, você não pode falar. Perguntei para um professora como seria e ela nem sabia o significado de gostar de alguém do mesmo gênero. Divórcio também é muito rejeitado lá.

Você percebe que as pessoas são muito ingênuas, elas não entendem uma sutileza, é tudo sempre ao pé da letra. Eles não entendem piadas.

Como era seu dia a dia? 

Índia

Acordava e ía para escola de manhã e ficava até a hora do almoço. Dava 4 aulas. À tarde voltava para casa para almoçar porque não conseguia comer a comida, tudo tinha muito condimento.

Aí ou ficava em casa conversando com as pessoas que moravam lá, o que era demais pois conversávamos era sobre o Islã, porque tinha bastante gente do oriente médio. Ou nos dividíamos em alguns grupos para sair e conhecer templos ou fazer compras. Comprei várias calças indianas quando cheguei, para usar todos os dias. (Não dá para usar jeans por causa do calor, e shorts nem pensar pelo preconceito)

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Sri Lanka

Ía para escola de manhã, só que lá eu ficava mais tempo pois demoravam 2 horas só para chegar. A escola era bem afastada da cidade. Era engraçado pois os ônibus são todos decorados, sempre tocando música e tal.

As pessoas que trabalhavam na escola eram parentes dos alunos, e almoçava por lá com elas. De tarde tinha aula de dança, arte e música. Como fiquei muito próxima dos alunos eu passava o dia com eles.

E nos finais de semana, você consegue conhecer tudo porque era muito pequeno, em algumas horas é possível atravessar o país. Pegava dicas com as pessoas locais para ir conhecer coisas não turísticas.

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Um desafio?

Índia

Lá tudo foi inesperado, foi um belo desafio. Me adaptar à cultura foi difícil. Aconselho feministas a não irem para a Índia, porque muitas vezes você fica com raiva pelo jeito que eles te tratam, mas é preciso respeitar pois é a cultura deles. A sujeira também foi um desafio, eu já sabia que veria isso ao chegar, mas era muito mais do que achava.

Sri Lanka

Foram muitos desafios. Todos os dias, principalmente na escola, tanto de adaptação (comer com a mão, por exemplo), quanto o fato de ser uma professora de crianças especiais, pois é preciso aprender a lidar com cada uma delas. Aprendi bastante e mudei muito meus valores. Se eu tivesse que escolher uma experiência que mudou minha vida, com certeza seria essa. Você dá muito valor para o que tem aqui. Bem transformador.

O que mais gostou? 

Índia

Gostei mais da experiência por um todo, por ser muito diferente. No último dia de Índia ja não aguentava mais. Mas hoje tenho saudades porque foi muito legal. Viver em um mundo totalmente diferente do seu.

Taj Mahal
Taj Mahal

Sri Lanka

Trabalhar com as crianças especiais, foi um laço criado muito significativo. Foi algo muito sentimental.

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O que evitar?

Na Índia evite sair da cultura deles. Mulheres: evitem roupas provocativas e não se estresse com coisas que não levam a nada. Chegando lá, o choque de realidade é grande, então tem que encarar como desafio.

No Sri Lanka evite coisas muito turísticas. Eles aumentam o preço quando percebem que você é de fora.

Dicas úteis?

Aproveitem tudo que os países tem a oferecer e tentar, se possível, algum dia viver como os locais vivem. É muito diferente chegar em um hotel e ter um guia. Viva o dia como eles, você vê a cultura e o país de um jeito diferente. Vive tudo pela essência.

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Sri Lanka vs. Índia

O que mais marcou foi que o trabalho da Índia não foi muito de verdade enquanto que no Sri Lanka foi algo de alma, algo verdadeiro que você sente que está fazendo algo certo. Foi algo enriquecedor, chorei muito no último dia.

Nepal

Depois de Índia e Sri Lanka, fui para o Nepal por turismo, e foi o lugar mais incrível que já visitei. Cheguei lá de trem e ônibus, 50 horas pra ir e 40 horas para voltar. Como estava com o orçamento limitado, fiz desse jeito para economizar. Fui com mais 3 amigos, um italiano, uma libanesa e um malasiano, que moraram comigo na Índia.

Vimos na internet que demorava umas 20 horas, só que o trem na Índia atrasou 7 horas, então perdemos o outro trem. E na fronteira do Nepal  estava tendo uma greve de ônibus. O trem da Índia é muito sujo, pegamos umas classes mais baixas na volta, mas era a única que tinha lugar.

E esse trajeto todo sem banho e sem nada.

Primeiro fui pra Kathmandu, depois Pokhara. Fizemos um dia uma trilha de 50 km sem guia, foram 14 horas na trilha, das 5h da manhã até às 7h da noite. Peguei sangue suga no corpo inteiro, foi desesperador. Pra tirar tinham que queimar, mas não tinha com o que queimar, então paramos em uma clareira e raspamos pedra no corpo para elas saírem.

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Durante todos os dias, tentávamos ver um pouco das montanhas do Himalaia, mas o clima estava cobrindo tudo. E depois das sanguessugas chegamos em uma vila e rapidamente tempo abriu o suficiente para conseguir ver as montanhas. Valeu super a pena, mesmo tendo durado uns dez minutos.


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Achei que o Nepal tem uma energia muito boa. E todo mundo achava isso. Talvez tenha sido o contraste da Índia, mas o povo de lá é muito acolhedor e a comida é deliciosa.

Não vi resquícios do terremoto, eles estão reconstruindo tudo muito rápido. Estão trabalhando forte com isso.

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*Se quiser saber mais sobre a experiência vivida pela Lia, ela escreveu sobre tudo isso no seu site, veja aqui.

Veja também:

1 Comentários

  1. Annesays:

    Também tive uma experiência dolorosa com a AISEC na Africa. Foi muito desafiador, mas ao mesmo tempo frustrante.

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