10 meses na Irlanda: como se aventurar no desconhecido é o melhor modo de se descobrir

Essa entrevista de hoje é interessante não só para as pessoas que têm interesse pela Irlanda, mas também por aqueles que passaram momentos de suas vidas que se sentiam um pouco sem direção. E que acabaram descobrindo, que o melhor jeito de se entender e encontrar seu caminho, era se perder pelo mundo. Viver o inesperado e sair da zona de conforto.

O Victor, que contou sua história para nós, é um exemplo de como se aventurar pelo mundo pode ser a melhor coisa que você pode fazer por você. Confira:

O que te motivou a morar fora?

Fui atrás de uma experiência de vida, precisava viver novas coisas e conhecer novas pessoas. Queria passar um tempo fora do que estava vivendo no Brasil. Tinha me formado na faculdade, já estava trabalhando, mas ainda não tinha engatado mesmo na minha carreira profissional e por isso achava que precisava desse tempo para me desenvolver pessoalmente.

O que te fez escolher Irlanda?

Alguns fatores, mas principalmente preço e possibilidade de trabalho. Além de ser um país que fala inglês. A localização também foi outro fator, pois estaria perto de muitos lugares na Europa para viajar.

Me formei no final de 2014 e em agosto de 2015 eu fui para Dublin.

Quando decidiu que ía, o que fez?

Fechei com uma agência de intercâmbio um mês de curso de inglês me hospedando em uma Host Family. E depois desse mês já planejava que teria que conseguir um trabalho, pois o dinheiro que eu tinha não era suficiente para o tempo que pretendia ficar, que eram 10 meses.

Fui tentando arranjar um trabalho mas sem contato nenhum. Me joguei e foi incrível.

Chegando na família, como foi?

A minha Host Mother foi incrível. Peguei um táxi pra casa dela no dia que cheguei e ela me recebeu super bem. Fazia coisas a mais por mim sempre, preparava comida para levar para o colégio. No segundo final de semana já me chamou para sair com ela e os amigos. Foi incrível.

Host Family

A minha recepção foi muito boa em todos os lugares. Mas na escola, percebi um dos pontos que fez colocar Dublin como “check”, era o fato de ter muitos brasileiros, sempre tinham uns 5/6 brasileiros na minha sala. Em uma próxima vez, talvez escolhesse um lugar com menos brasileiros.

Como achou a segunda casa?

Na minha primeira vista, eu queria fugir dos brasileiros. Mas depois que saí da casa da minha Host Mother e comecei a procurar um novo lugar para morar, eu percebi que quando fazia entrevistas com pessoas que não eram brasileiras que elas valorizavam a casa e o pagamento do aluguel somente. Não queriam nenhum tipo de envolvimento.

Mas quando fiz entrevista com brasileiros, eles chamavam pra conversar, te ofereciam uma cerveja, queriam saber sobre você, o que gosta de fazer e para mim isso foi essencial. Então eu escolhi morar com brasileiros e foi a melhor escolha que fiz. A gente matava vontade da cultura, fazia couchsurfing  porque queríamos conhecer outras pessoas e ficávamos sempre muito unidos. Nos tornamos uma família, parecíamos irmãos. E fora dali, eu saía com pessoas estrangeiras, para me envolver na cultura irlandesa.

Lá em Dublin, existem milhares de brasileiros morando. E eles possuem vários grupos para se comunicar, até classificados para brasileiros em Dublin, coisas de zoeira, mas sempre tem um meio de comunicação. E em um desses grupos eu conheci essa casa, que não era muito boa por sinal, mas era o que cabia no budget e foi incrível.

14527513_10208578589436847_1780526431_n
Minha casa

 

Sobre visto:

Na época que eu fui, a questão do visto era super tranquila. Você chega no aeroporto e eles te dão um visto de turismo de 3 meses. E depois você conversa com eles na imigração e mostra que está estudando e eles mudam o seu visto para estudante que dura mais tempo.

Como achou trabalho?

Nos 2 primeiros meses, sua cabeça ainda está como de turista. Só pensando em sair, conhecer lugares novos e ficar com os amigos. E aí você meio que esquece que precisa conseguir um trabalho. Quando eu realmente comecei a procurar por um, não foi muito simples encontrar. Porque apesar deles quererem e precisarem de mão de obra para empregos secundários, como garçom e assistente de cozinha, eles pedem bastante experiência em tudo. E era algo que eu não tinha. Então, é mais fácil conseguir um emprego através de contatos ou indicações.

Então, chegou a um ponto que eu estava me preparando para voltar, porque meu dinheiro estava acabando. A agência falava que o suficiente para ficar 6 meses eram 3 mil euros. Mas isso não foi suficiente, porque você precisa pagar aluguel, se alimentar, quer sair e conhecer, então não durou isso tudo.

Até que um dia, um amigo meu falou que tinha conseguido um trabalho pra ele mas que não poderia ficar. Ele me disse que estava indo à tarde no lugar avisar que teria de dispensar a oportunidade. Aí eu disse pra ele me levar junto. Ele explicou para o empregador que não poderia ficar mas que para não deixar ele na mão, ele tinha me trazido e que eu poderia ficar com o job. Aí o cara respondeu que eu começaria em meia hora.

Então eu comecei a carregar caixas em um pub na Irlanda. Achei uma experiência incrível ter um trabalho manual. Lidar diretamente com o cliente. Minha principal função era estocar as cervejas, trazer gelo e colocar/retirar copos na mesa. Mas se precisasse eu ajudava a servir, aprendi a fazer alguns coquetéis. Foi incrível, pois pessoas do mundo inteiro passavam por lá, trabalhando ou como clientes.

Trabalhando no pub

O salário mínimo lá era de 9,15 euros por hora. Eu trabalhava uma média de 25 horas por semana, e recebia isso mais as gorjetas. Dava para pagar minhas contas tranquilamente, consegui guardar dinheiro para mandar pro Brasil e também usei uma parte para viajar.

E se comparar com o Brasil, eu acho que o salário mínimo de lá te dá a condição de fazer coisas que uma pessoa aqui só conseguiria com um salário de 4 mil reais por mês. Então é um salário bom que te dá um condição de vida boa. O custo de vida na Irlanda é alto, mas trabalhando lá, sem converter a moeda, dá pra viver bem.

Trabalhava de quinta a domingo e nos feriados. E às vezes a gente trocava os turnos. Variava da semana e do fluxo do bar.

O que fazia fora do trabalho?

Quando não trabalhava, saía com os roommates para conhecer tudo sobre Dublin. Morava perto da praia, e gostava de passear por lá. Ficava em casa também jogando videogame. E lá o que mais tem para fazer é ir em um Pub tomar um Guiness. Como eu trabalhava de final de semana, não consegui viajar muito com meus amigos, mas eles foram conhecer o interior da Irlanda, o que é algo que vale muito a pena.

Enquanto eu estava lá, viajei para Amsterdam, Barcelona, Madrid e Londres. Eu poderia ter viajado mais, mas optei por mandar dinheiro para o Brasil para pagar minha faculdade. Mas foram viagens incríveis. Se você se prepara com antecedência, por exemplo como fiz para Londres, consegui uma passagem de avião por 15 euros. Liverpool ida e volta por 10 euros.

Em Amsterdam

Como foi para se adaptar?

Não demorei a me adaptar. Descobri tudo sobre a Irlanda pela internet antes de ir. Mas não pesquisei absurdamente pois queria me jogar e viver tudo. Mas confesso que achei, que por ser capital, seria algo maior. Mas na verdade, é tudo antigo e pequeno.Chegou a me incomodar, mas não dá pra comparar com o ritmo de São Paulo (de onde sou), que é muito agitado. Depois de um tempo, comecei a sentir falta do Brasil.

Depois de um tempo, comecei a sentir tudo um pouco cansativo. Tive alguns problemas no trabalho, outros no Brasil e tive alguns roomates que foram embora e tive alguns problemas no Brasil. E aí, juntando todos esses acontecimentos eu resolvi voltar em Junho de 2016.

Aprendi muito a conviver com pessoas diferentes, elas me ensinaram coisas melhores de convivência. E me liberei para voltar para o Brasil quando percebi que meu objetivo de desenvolvimento pessoal tinha sido atingido.

Hoje sinto que sou uma pessoa muito mais feliz. Hoje digo que sou uma pessoa que me conheço justamente por ter vivido tudo isso.

Como lidou com situações difíceis que passou?

Enquanto eu estava lá, eu tive um avô e uma avó que faleceram no Brasil.  O povo Irlandês é muito receptivo, gosta de bater papo. Mas se você vai falar algo mais sentimental ou delicado, eles não se abrem muito. Preferem manter uma distância. Não gostam de compartilhar sentimentos.

Não fui uma pessoa que fazia skype sempre. Lidar com isso tudo foi muito complicado. Eu contava muito com o apoio dos meus roomates. Foi também quando agradeci por eles serem brasileiros. Eles me deram muito apoio com tudo. E foi quando eu cheguei no Brasil que realmente descobri o que é saudade. Vi o quanto eu gosto da minha família e quanta falta que eles me faziam.

Depois disso, comecei a lidar com eles de forma diferente, e eles sentiram também essa mudança em mim. Minha mãe já disse que sentiu que eu mudei bastante. E que se ela soubesse disso, teria até me mandado antes para a Irlanda.

Maior desafio:

Foram vários. Mas o primeiro e maior foram as perdas aqui no Brasil. Outra vez, foi quando eu estava trabalhando no ano novo. Estava no porão do pub, todo sujo e carregando caixas. Aí ouvi a contagem regressiva: “3, 2, 1 Happy New Year!”  E eu estava sozinho, coloquei as caixas no chão e comecei a chorar. Ali eu senti muito falta dos meus amigos e família.

Como você acha que essa experiência mudou e vai mudar o seu futuro?

Totalmente. Eu era outra pessoa antes. Mas hoje sou uma pessoa que não tem medo de viver, de escolher e sabe que independente do que aconteça, eu vou estar feliz, o que era algo que eu temia antes. A principal coisa, é que eu sei que vou estar feliz no futuro não importa com que aconteça.

Quando voltei para o Brasil e descobri o significado de saudades

 

Deixe um comentário

Please be polite. We appreciate that. Your email address will not be published and required fields are marked